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sábado, 19 de julho de 2008

Cena do crime

Estávamos conversando há poucos dias na lista apcf, onde os membros são certificados forenses pela Axur, sobre imagem forense, cadeia de custódia e abordagem da cena do crime. Esse último tópico gera alguma polêmica, tanto pela falta de procedimento formal quanto pela aplicação dos conceitos que já existem, mas em uma situação onde não há crime, há apenas uma investigação. Segue o post do Fábio Ramos e o meu logo depois:

Fábio Ramos
Qualquer software que faça copia bit-a-bit gera uma imagem que tem validade legal. Os princípios que voce deve observar são:

1-) Voce não pode escrever nada no HD source (objeto que está sendo copiado)
2-) O HD que sera usado para análise (a cópia) tem que ter o HASH da sua imagem batendo com o HASH da imagem do source HD

O DD do linux, por exemplo, faz copia bit-a-bit. No mais deixo para o Tony explicar, porque ele é expert nesse assunto.

Geralmente o procedimento consiste no seguinte:

1-) Voce chega na "cena do crime" e com testemunhas, faz a aproximação para que seja gerada uma imagem das memórias que serão investigadas;
2-) Voce retira o HD e coloca em um case, ou em um aparelho que vai fazer a cópia;
3-) Neste momento pode ser importante usar um bloqueador de escrita para garantir que durante o processo de cópia, a memória que esta sendo investigada não recebera nenhum tipo de acesso que possa alterar um bit sequer;
4-) Voce lacra o HD original (que foi copiado). Esse HD deve ficar em custódia de alguém que possa garantir sua preservação. Pode ser um cartório, por exemplo. Isso vai depender também do seu papel no processo, se voce for perito contratado por uma empresa, vai ter mais liberdade, se for perito nomeado, vai ter que seguir todo o ritual, se for perito assistente, vai ter que olhar (e muitas vezes corrigir o perito nomeado :-))

5-) A partir de agora voce só analisa o HD copiado. Recomendo fazer cópias do HD copiado para garantir que caso você comprometa a cópia, nao vai precisar abrir o envelope lacrado do HD original para tirar outra cópia.


Tony Rodrigues:
Uma coisa interessante para se dizer com relação ao porquê de haver essa coisa toda, da liturgia.

A Computação Forense, ou Forense Computacional, é bastante nova, principalmente comparando-se com outras disciplinas Forenses, como a Balística e a Medicina Legal.


Os procedimentos que o Fábio narrou fazem parte da liturgia forense americana, e é aceita em praticamente todo o resto do mundo, como melhores práticas nessa área.

Faz muito sentido ... Você, como policial, mete o pé na porta, grita "Mãos para o alto - POSITIVO OPERANTE (como o casseta&planeta diz :D )" prá todo mundo (lá nos States eles mandam aquele "freeeeze !"), e apreende tudo que encontra pela frente, montando a cadeia de custódia.

No lab, a primeira coisa que o Perito Criminal faz é abrir o lacre, fazer a cópia, relacrar e juntar esse registro na cadeia de custódia. E por aí vai. No processo todo, além dos próprios policiais que irão testemunhar em como a polícia apreendeu e lacrou os computadores, temos vários logs que dão conta de responder a famosa pergunta - "COMO POSSO SABER SE NÃO ESCREVERAM ISSO QUE ME INCRIMINA DEPOIS DE TUDO TER SIDO LEVADO PELA POLÍCIA ??"

Faz sentido, né ? Ou seja, no fim das contas, a liturgia (processo) protege a ação de todos e coopera para a manutenção da integridade das provas eletrônicas.

O grande problema é que no Brasil não há um procedimento formalizado para o que está escrito acima. Além disso, os casos que não são crimes são um capítulo tenebroso, porque é sempre possível levantar suspeitas de que as evidências foram "plantadas". O mais próximo que tenho visto de resolverem isso é:

Empresa X tem uma suspeita qualquer, digamos, um vazamento de informações -> contrata o Investigador Digital John Doe-> Furtivamente, John Doe acessa a máquina e captura os dados que precisa, para analisar. Pode ser no disco ou na rede, através de logs, sniffers, etc -> Na análise, ele localiza evidências que comprovam as suspeitas -> John Doe emite relatório da investigação -> Empresa X demite o suspeito por justa causa -> No mesmo momento em que ele está sendo demitido, a máquina é desligada na presença do tabelião ou seu representante, que vai fazer a Ata Notarial -> O processo segue como descrito acima pelo Fábio, com a aquisição da imagem forense e início da cadeia de custódia.

O mais provável: O ex-funcionário demitido entra na justiça pedindo reversão da justa causa -> O relatório do Investigador passa por uma revisão e vira um Parecer Técnico, que é juntado aos autos do processo trabalhista. O Investigador Digital John Doe passa a atuar como Assistente Técnico.

Durante o julgamento, se houver contraditório (o ex-funcionário reclamar das provas apresentadas), o Juiz vai nomear um Perito para o caso -> Perito vai analisar o lacre, a Ata Notarial, e também vai fazer uma imagem forense -> Tempos depois, o Perito nomeado pelo Juiz emite o Laudo. O Juiz lê o Laudo e decide.

Com o processo acima fica difícil obter base para alegar que mexeram no HD e plantaram as evidências e artefatos. O processo sempre vai apontar testemunhas que garantirão a integridade das evidências. Além disso, dificilmente o Perito e o Investigador Digital acharam apenas um único artefato que comprova o ilícito. Tudo que foi localizado é avaliado e deve corroborar em conjunto para indicar a culpa do ex-funcionário.

O ruim disso é que, como o procedimento é praticamente feito duas vezes, tudo fica mais caro, e nem todo mundo quer fazer assim. Muitas empresas X, Y e Z tentam fazer mais rápido e vão para o risco, caso alguém alegue que a prova não é verdadeira ou não é íntegra.

Comentários ? Compartilhe suas experiências de como conduziu uma situação parecida.

Até o próximo post !

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Processo do Clã MacLeod

Estava lendo um artigo do Andreas Schuster, um dos Papas no assunto de Forense da Memória de sistemas Windows.

O artigo apresenta vários conceitos básicos não apenas a respeito da importância de se fazer forense da memória, mas também indicando que em alguns casos a memória será a única a conter o artefato que pode trazer luz ao caso sendo investigado.

Lá pelas tantas do artigo, Schuster abre um tópico sobre a persistência dos dados na memória principal. Ele mostra estudos e estatísticas de máquinas que ficaram com informações disponíveis até 14 dias após o processo ter terminado !

Sendo mais claro: Em muita situações, você poderá executar comandos e utilitários que farão um instantâneo da máquina. Esses comandos, muito comentados em operações de Resposta a Incidentes, falam da situação atual da máquina. Em geral, eles não estão preparados para dar informações sobre um processo que já foi finalizado, por exemplo. Imagine que o tal era exatamente o elo que você buscava e, descobrindo-o, todas as dúvidas a respeito do caso seriam resolvidas. Mas o problema continua, porque você só tem na mão a foto do sistema, que foi tirada no momento em que o processo vilão já tinha saído de cena.

O que o Schuster apurou é que, devido a forma como as memórias Windows são gerenciadas, ele conseguiu obter informações de processos depois de muito tempo que foram terminados. Na situação-exemplo acima, uma análise forense da imagem da memória iria revelar o processo vilão.

Não pense que o ilustre pesquisador ficou satisfeito. Ele sacou algo inicialmente dito pela dupla de também gurus da Forense Computacional Farmer e Venema, que nem todos os computadores zeram a memória principal quando estão reiniciando. Isso depende mais da codificação da BIOS do que do sistema operacional, mas não há especificação que obrigue a isso, embora a maioria o faça. Consequências ??? Simplesmente, em suas pesquisas, ele descobriu processos com datas anteriores ao reboot da máquina ! No artigo ele mostra um deles, que resistiu bravamente a três reinicializações.

Estamos frente a um processo Highlander !!! 8-))

Brincadeiras a parte, as informações sobre o processo ultrapassaram as reinicializações, o que aumenta o valor da investigação em imagens da memória, não ?

Gostaria de ver comentários a respeito disso. Você já pesquisou algo parecido ? Já encontrou resultados que apontassem isso em investigações ?

Até o próximo post !